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AS MINHAS ESTRELAS

Por Ana Guerra

No outro dia, ao desempenhar um desafio (um discurso), cujo objectivo era construir uma história de contar (storytelling), utilizei uma estória que costumo contar, cujo início é o mesmo, todavia o desenvolvimento pode variar consoante a minha inspiração.


É a estória de um cavalo que quer conhecer o mundo, pois nunca saiu da floresta onde tinha nascido e crescido.


Conhecia algumas histórias de viajantes, que passavam por ali. Acreditava que existiam lugares maravilhosos, e também uns seres chamados humanos.


Os amigos dele, sapos, lebres, raposas, flores, árvores, várias espécies de pássaros, alguns insectos e outros seres vivos, diziam que ele era tonto quando manifestava vontade de viver aquela aventura.


Os dias estavam lindos, cheios de sol, por onde se via alegria em todos os cantos da floresta. As aves chilreavam, cantavam, trocavam melodias com a brisa que preambulava pelas árvores ou pelos riachos. O nosso amigo era o único da sua espécie, e esse motivo motiva-o ainda mais.


Durante as noites, as estrelas contavam momentos que viam noutros horizontes, pelo simples facto de que eram longínquas e o seu alcance era vasto.


Falava cada vez mais sobre a sua viagem e decidiu começar a juntar alguns pertences, fazendo a sua trocha para se fazer ao caminho. Anunciou aos amigos, que partiria no dia seguinte.


A floresta ficou em alvoroço, cheia de mexericos nascidos da novidade. A rotina estava quebrada pelos preparativos da aventura e todos tinham algo a comentar. As estrelas brilhavam muito e inspiravam o nosso amigo cavalo, fazendo-o acreditar que a sua curiosidade seria satisfeita.


Entusiasmado, naquele dia acordou com o sol. O seu amanhecer estava em sintonia com o astro. Alguns dos amigos estavam reunidos à sua volta. Uma raposa com quem ele corria pela pradaria, dizia-lhe: - Vais mesmo sair daqui? Não tens medo? E, se encontras seres estranhos? Ele respondeu: - Não tenho medo. Recordas-te que vivemos na Natureza, não nos encontramos sozinhos. Foi a vez da lebre: - E, se nada do que as estrelas te contam for verdade? Ele retorquiu: - Claro que é verdade! Confias nelas ou não?


Ele tinha sempre uma resposta para todas as dúvidas que lhe colocavam. O sorriso dele revelava a confiança que sentia, demonstrava que, mesmo quando se sentia mais frágil, partilhava o conhecimento que tinha e o que acreditava, fazia nascer um brilho nos olhos.


Estava preparado e comunicou: - Vou deixar-vos uns com os outros e relinchou.

Todos se despediram dele, alguns entregaram alguns alimentos, com carinho e amizade.

As árvores entoaram uma música com alegria, transmitindo uma energia que ele reconhecia. Sentir aquele calor irradiante, fê-lo ter mais força e determinação no seu sonho.


A sua caminhada tinha começado. Caminhou alguns metros, e parou no rio que era seu amigo, para beber alguns tragos.


- Olá! Então, já vais? - ouviu-se um coachar.

- Olá! Não te vejo, amigo sapo, onde estás? - respondeu o cavalo, reconhecendo que era um batráquio que meteu conversa com ele, apesar de não o conhecer.

- Estou do teu lado esquerdo, junto aos juncos. - respondeu o sapo.

- Ah, agora te vejo! - disse o cavalo - Sim, vou por este trilho, que o meu amigo rio me disse para seguir, por ser seguro e ter a possibilidade de ir conhecendo novas árvores, flores e outras plantas, assim como outros seres, que me garantiu desconhecer. Além disso, sinto-me acompanhado por ele.

- Belíssima ideia, a do teu amigo rio. Desejo-te uma fabulosa viagem. - despediu-se o sapo.

- Obrigado! Quando regressar, contar-te-ei sobre tudo o que conheci e vivi. - relinchou com alegria.


Como tinha partido cedo, o seu amigo sol, ainda não se encontrava muito alto, o que ajudava na sede e no cansaço. De vez em quando, algumas árvores chamavam-no para ele respirar um ar mais fresco. De repente, ouviu uma vozinha: - Hei, hei, tu aí, quem és?


O nosso caminhante parou, virando a cabeça para ver de onde vinha a voz. Nada encontrou, e disse: - Eu sou o cavalo, mas não te vejo. Podes falar outra vez, para te encontrar?

- O que é um cavalo? - perguntou a vozinha.


Ele riu com um relincho, dizendo: - Não sabes o que é um cavalo? (relinchou novamente com alegria) Que te posso dizer? Um cavalo é um ser como eu, como vês, 4 patas, uma cabeça, uma cauda. Eu sou castanho com esta mancha na testa, no entanto há outros de outras cores, pelo que me contaram as estrelas e que anseio por vir a conhecer.


- Estás a dizer-me que não conheces outros como tu? - perguntou a vozinha.

- Não conheço, ainda. Comecei, hoje, uma aventura pelo mundo. Continuo sem saber com quem converso. Onde estás? Quem és? - perguntou o cavalo.

- Estou aqui, bem perto de ti, quase que me pisavas. Tenho umas pétalas brancas, um pé não muito alto, e emano um perfume muito suave. - indicou a vozinha.


Baixando a cabeça, ele encontrou a vozinha. Ficou mais um pouco com ela, relatando sobre a sua decisão, donde vinha, e que já estava a valer a pena ter saído da floresta que conhecia, pois a vozinha era uma flor que ele desconhecia. Sentiu-se muito feliz.

Retomou a sua caminhada. Continuava acompanhado pelo rio, umas vezes este desaparecia pelos arbustos, rochas ou árvores que iam surgindo pelo caminho, e a floresta como a conhecia cada vez estava mais longe. Agora, iam surgindo seres diferentes, com quem conversava e fazia perguntas. A lua começou a surgiu e cumprimentou-o. O amigo sol avisou que ia brilhar para outros lugares.


A lua ajudou-o, com a sua sapiência a encontrar um lugar para pernoitar e ficar a conhecer novos amigos noctívagos, que ele desconhecia.


A sua primeira noite foi muito gratificante. Depois de agradecer o seu dia, adormeceu profundamente.


O despertar do segundo dia foi com alguma surpresa sua. Novos amigos tinham-se reunido para desejar-lhe uma excelente caminhada e indicaram onde havia um novo rio para que pudesse banhar-se e beber água. Depois dos agradecimentos e despedidas, retomou a sua marcha.


Depois de alguns quilómetros, uns a passo e outros a cavalgar, encontrou uma clareira perto de um riacho. Encontrou um ser que nunca tinha visto. Era pequeno, tinha um cabelo que parecia com o seu e emitia um som que lhe recordava os pássaros a cantar.

Passo-a-passo aproximou-se. Quando se encontrava perto, perguntou: - quem és?


Era uma criança, que se assustou, por ter visto cavalos ao longe, mas nunca a falar. Ficou receosa, parada e, timidamente, disse: - tu falas? Não sabia que os cavalos falavam.


- Na minha floresta todos os seres vivos falam, pois apesar de emitirem sons diferentes, usam a sua capacidade telepática. Desse modo falamos todos uns com os outros. O que te parece audível, acontece na tua mente.

- Hum... - disse a criança - porque estás aqui?

- Decidi vir conhecer o resto do mundo. Nunca tinha saído da floresta onde vivo. Os meus amigos diziam que eu era louco em sair de lá sem saber nada a não ser o que as estrelas me contavam e alguns outros animais que passam por lá.

- Tenho de regressar à minha aldeia, pois precisam de água, que vim buscar ao rio.

- Posso ajudar-te? - perguntou o cavalo.

- Como? - questionou a criança.

- Talvez levando esses potes - sugeriu.

- Está bem. Prometes-me que guardas o segredo de falarmos um com o outro? - inquiriu a criança, com os olhos semi-cerrados como se segredasse.

- Claro! Gosto de ti.


Os potes estavam cheios e colocando-se em cima duma rocha, a criança colocou os potes nos alforges que o cavalo trazia no dorso; estavam vazios, pois o cavalo já tinha comido tudo o que os amigos lhe tinham dado.


Foram juntos para a aldeia. Todos estranharam o visitante, no entanto a criança conseguiu sossegá-los e durante alguns dias o cavalo permaneceu por lá. Estavam a construir uma casa que seria um recinto para várias funções: escola, um espaço para actividades para os mais velhos e uma biblioteca. O cavalo ajudava e os aldeões estavam muito felizes porque aquele cavalo parecia diferente.


Houve uns desacatos com um ou outro aldeão, que foram resolvidos pelos pais da criança. Ela conversou com os pais e explicou-lhes que o cavalo podia falar com eles, como eles falavam entre eles.


Estavam habituados a escutar o que sentiam, as suas intuições, e apesar de saberem que os outros nem sempre os compreendiam, não se importavam, porque eram felizes ali. Acreditavam que aquilo que desejavam para si, os habitantes daquela aldeia também concordavam de alguma forma e isso ajudava-os, em comunidade, a encontrar soluções para as suas adversidades.


Eles sentiram que a vinda daquele cavalo era como um sinal de que se encontravam no lugar certo e a cumprir com a sua missão.


Passadas umas semanas, o cavalo deixou-os, agradecendo a sua hospitalidade, que aprendera muitas coisas novas e que queria continuar a sua aventura.


Aquilo em que acreditava: "Enquanto as estrelas brilharem, ainda haverá esperança na vida." - uma frase que ouvira numa das noites que vivera naquela aldeia, quando o pai da criança, leu um livro (outra coisa que ele não sabia que existia) de um autor chamado Érico Veríssimo, ficou-lhe na mente e com essa atitude, foi descobrir o que o mundo mais tinha reservado para ele.


Sentiu que isso lhe trazia força para continuar a sua marcha e aprender muitas coisas.

Encontrou uma águia durante os próximos dias, a quem pediu que levasse notícias dele aos seus amigos da floresta.


Podes viver como o nosso amigo cavalo?



Ana Guerra

Terapeuta Holística - Magnified Healing

Email: sonhodumavida@gmail.com

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*A autora não aderiu ao Novo Acordo Ortográfico

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