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AS SEMENTES OCULTAS DO FRIO INVERNO

Por Diana Pereira

A luz, o branco, o puro e a alegria tendem a ter sempre o papel mais importante e acabam por ser o foco principal das nossas vidas e mesmo do próprio caminho espiritual. Tende a ser a única preocupação perseguir a luz e fugir de tudo o que seja obscuro e doloroso.


Esquecemo-nos de que nada existe sem o seu contrário e de que o verdadeiro crescimento se dá quando aceitamos os opostos e os incorporamos plenamente nas nossas vidas.


Estamos agora no Inverno, a altura do ano perfeita para trabalharmos esta energia mais densa dentro de nós. Os dias são mais pequenos e cinzentos, escuros, as noites são mais longas e geladas. Estamos mais recolhidos em casa e participamos menos em actividades sociais. É a estação do ano mais sombria. É um tempo de aridez, de recolhimento, de isolamento, de morte, e por todo o lado conseguimos observá-lo, seja na natureza (as árvores despidas, os animais em recolhimento e descanso, alguns deles chegando mesmo a hibernar, existem menos flores e, por isso, menos cores a pintalgar os campos, e os pássaros migraram já rumo aos países do sul, mais quentes), seja em nós mesmos (surge muitas vezes o transtorno afectivo sazonal, uma forma de depressão que surge exclusivamente nos meses de maior escuridão e frio, podendo ir desde um leve desânimo e apatia, até casos tão complicados que a pessoa não consegue mesmo ter uma vida normal e tem de ficar em casa sem sequer ir trabalhar).


O Inverno pode enganar-nos se o olharmos pela superfície apenas, sem o explorarmos com a profundidade que ele nos pede. Aparentemente, tudo está morto sem que realmente o esteja. As árvores estão despidas e a terra não produz frutos. Mas, na realidade, sabemos que das árvores despidas surgirão brotos na Primavera, e que na terra as sementes descansam, esperando o momento certo para surgirem, em tudo igual ao ciclo de vida e morte da alma humana.


O facto é que o frio e a escuridão desta estação do ano são de extrema necessidade para despertar o potencial adormecido da terra, mas também o nosso. É nos momentos de maior dificuldade que nos superamos. Eles servem como uma força impulsionadora, mesmo que nos apareça sob a forma de um período de estagnação em que nada parece desenrolar-se.


A sensação de se estar estagnado pode e deve ser substituída pela certeza de se precisar de um tempo que deve ser aproveitado a nosso favor para parar um pouco, abrandar o ritmo, pensar, sentir e delinear um plano para o futuro. Um plano mais realista, dentro do que podemos ou conseguimos concretizar, e ao qual poderemos ir aumentando o grau de dificuldade à medida que vamos conseguindo atingir esses mesmos objectivos.


É necessário descansar para existir reorganização, para se dar concentração de energia, o conjurar uma nova força que leve à acção com um foco e intenção renovados, de modo a trazer os resultados que queremos. Também a Mãe Natureza nos ensina isso. A terra não dá frutos todo o ano, nem dá os mesmos frutos todo o ano. Não temos de ser altamente produtivos a todo o instante. Muitas vezes, somos mais produtivos quando paramos.


Este descanso pode passar pelo silêncio e pelo isolamento. Aquilo de que precisamos para recuperarmos o que somos pode ser tão simples quando não termos de ser nada em especial. Termos liberdade para apenas sermos. Não raras vezes é por estarmos demasiado absorvidos pelo que nos rodeia (família, amigos, colegas, trabalho, televisão) que nos esquecemos de que existimos, de que também temos necessidades, e esquecemos até mesmo do que somos. Somos puxados em tantas direções diferentes que acabamos por perder o nosso centro.


A escuridão não deve ser vista como um bicho-papão. Só na escuridão pode surgir a luz. É vital perdermos o foco do todo para conseguirmos notar num pequenino ponto de luz que pode ser aquilo que precisamos para nos guiar na noite mais escura, tal como o é a estrela polar, ou a estrela que guiou os Reis Magos.


Os Invernos podem ser bem aproveitados para criarmos Primaveras floridas e Verões frutuosos, se soubermos tratar das sementes escondidas debaixo da terra aparentemente infértil.


Muito Amor,




Diana Pereira

*A autora não aderiu ao Novo Acordo Ortográfico

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