Bonito é quem desperta o amor e fica

O rico turista passeava de carro por uma estrada de uma cidade do interior quando seu olfacto e seus olhos foram atraídos por um aroma e uma visão unicamente lúdicos de uma quinta repleta de flores e árvores frutíferas. A casa era simples, as terras não se perdiam de vista, a varanda onde havia um casal de idosos sentados era pequenina. Entretanto, a beleza do local era simplesmente tocante a ponto de faze-lo parar e querer conhecer aquele casal que encontrava-se em meio àquele local maravilhosamente inusitado.


Da varanda, o simples agricultor e sua esposa admiravam sua pequena quinta repleta de flores e frutos. Sentados à sua varanda tinham a verdadeira noção da beleza do seu quintal. Era fruto de muito trabalho, muito amor e muito zelo. Era uma construção a quatro mãos e dois corações. Nada ali era ao acaso. Mesmo distraídos com a vista ao redor e seus pensamentos, perceberam um senhor em seu belo automóvel tentando adentrar o espaço. Convidou-o a aproximar-se com um simples aceno de mãos.


O turista, entre entusiasmado e encantado com o que vira, num ímpeto, faz uma proposta irrecusável financeiramente. Entretanto, tem como resposta um olhar amável e um leve sorriso junto a uma firme negativa. Proposta após proposta, a resposta não mudava assim como a expressão singela do casal. Um pouco frustrado, meio curioso e muito contrafeito, o jovem empresário, pergunta ao casal:


- Então, vocês não querem ser ricos?


- Queremos. Ricos como?


- Ter muito dinheiro para comprarem uma terra muito maior!


- E o que faríamos com esta terra?


- Vocês poderiam contratar pessoas para cultivarem para vocês e ficarem sentado na varanda a ver o novo campo gigantesco que teriam.


- Ah, o senhor quer que sejamos ricos para fazer exatamente o que fazemos agora? E o senhor, o que faria com este campo?


- Não sei. Ficaria aqui sentado admirando minhas flores, minha árvore, meus animais de estimação correndo, talvez convidasse pessoas. Poderia comprar a terra ao lado e integrar a esta, montar um parque.


- E como o senhor faria quando chegasse a hora do plantio, da colheita, de cuidar da terra?


- Contrataria alguém que entendesse do ramo, um administrador. Então, fechamos negócio?, perguntou o empresário acreditando ter convencido o velho agricultor.


- Não. Se o senhor não sabe a verdadeira beleza que é cuidar do campo, semear, proteger o solo do sol e da chuva e cultivar para toda esta beleza fluir, vai desfazer-se do meu motivo de orgulho em pouquíssimo tempo, vai cansar-se e desistir no meio do caminho, vai desvalorizar o que tanto valorizamos. E eu, por outro lado, terei uma nova enorme terra para semear e de tão atarefado e cansado não curtirei o fruto do meu trabalho concluído. Tenho uma outra proposta para o senhor: que tal deixarmos tudo como está? O senhor está convidado a visitar-nos sempre que desejar e quem sabe um dia. Quem sabe um dia venha a construir um campo tão belo e feliz como este?


Com um suspiro, o empresário retirou-se da varanda pensando em tudo o que aquele senhor dissera-lhe. Realmente, havia apaixonado-se pelo belo local, mas sem saber como cuidar dele, seria impossível mantê-lo. E será mesmo que não se cansaria e desistiria ao primeiro problema? Mas, a vontade de ter um lindo campo como aquele fora incutida em seu coração. Estava ali semeada uma bela e feliz ideia.


Com um suspiro, o casal entreolhou-se e ambos sorriram, certos da decisão que haviam tomado. Adorariam um quintal maior. Mas, para que mais flores se haviam apenas quatro braços para colhe-las e estavam satisfeitos com a produção e o seu escoamento? Uma casa maior não era tão necessário, uma vez que viviam apenas os dois ali. Talvez pudessem ajudar outros a construírem seu próprio campo. Seria bonito ver brotar a sua volta novas terras. Entretanto, ainda mais "bonito era cuidar e proteger o que tinham, como quem desperta o amor e fica". 


A vida era bela e feliz e nada fariam abrir mão do pedacinho de céu que construíram juntos. 

Grata,

Patricia Tolezano

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