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DESAPEGO: A SUPREMA LIBERDADE

Por Adosinda Borges

A maior causa do sofrimento humano é o apego que as pessoas têm às coisas, às pessoas, às situações, às opiniões dos outros - a tudo o que consideram importante nas suas vidas e que acham que os vai fazer felizes ou, pelo menos, menos infelizes.


Quando viemos a este mundo, viemos sem nada. À medida que vamos crescendo, vamos adquirindo "coisas"... Uma criança cedo aprende a dizer: "o brinquedo é meu". Com o tempo, vamos acumulando um conjunto de bens a que chamamos "nossos" e que consideramos um prolongamento de nós próprios, pois vamo-nos sentir engrandecidos.


Quanto mais tempo vivemos, maior a probabilidade de acumularmos mais bens. Na maior parte dos casos, não necessitamos de grande parte do que temos para viver, mas, de alguma forma, esses bens dão-nos algum tipo de segurança e/ou conforto psicológico ou emocional.


Quanto mais "vazios" estivermos interiormente, ou seja, quanto menos contato tivermos com o nosso "Eu interior", a nossa essência, mais buscaremos no exterior o que julgamos que nos irá preencher. Ora, este vazio nunca poderá ser preenchido por algo exterior a nós, pois de cada vez que adquirimos alguma coisa, isso vai-nos satisfazer por algum tempo até deixar de ser novidade e a nossa busca vai continuar e a insatisfação vai manter-se.


A certa altura, tantas "coisas" tornam-se num "peso" difícil de carregar, pois como bens materiais (móveis ou imóveis), não os podemos levar connosco e, por vezes, prendem-nos a uma vida que já não nos satisfaz e impedem-nos de "partir para outros voos". Quase nos sentimos na obrigação de ficar e deixamos, por vezes, de fazer mudanças na nossa vida que poderiam, essas sim, preencher o nosso vazio interior, vazio este que só pode ser preenchido com a alegria de estarmos a ser nós mesmos e a fazermos o que apaixona a nossa alma.


Com as relações entre as pessoas também se passa o mesmo: é o "meu" filho, é a "minha" namorada, é o "meu" marido, etc… Quando se trata de pais e filhos, aqueles consideram que os filhos lhes pertencem. No entanto, os pais foram simplesmente o meio através do qual outros seres humanos vieram a este mundo físico.


Como pais, têm o dever de os criar e educar da melhor forma que souberem, mas, como diz Deus, no livro 1, das "Conversas com Deus", de Neale Donald Walsch1, a sua função é torná-los independentes, ensinando-os o mais rápida e exaustivamente possível a desenvencilharem-se sozinhos, pois os pais não são nenhuma bênção para os filhos enquanto estes precisarem dos pais para sobreviver.


Quando o ser humano atinge um nível de consciência divino (que se dá com o "despertar"), entende que não é responsável por nenhuma outra alma e que, apesar de ser louvável desejar o bem estar de todos os membros da sua família, a verdade é que cada alma deve escolher (está a escolher) o seu próprio destino.


O mesmo acontece com o apego às situações: desenvolvemos expetativas, fazemos planos, esperamos que determinadas situações venham a concretizar-se da forma que idealizámos. Não há nada de negativo em fazer planos. Se queremos realmente concretizar algo, podemos planear o que fazer, como fazer e estabelecer prazos, dando o nosso melhor para atingirmos os nossos objetivos.


No entanto, não devemos agarrar-nos aos resultados (criar expetativas), pois se o que planeámos não acontecer, vamos sofrer. Além disso, a partir do momento em que damos o nosso melhor, nada mais podemos fazer, então libertamos a nossa intenção. Se o que pretendíamos se vier a concretizar, muito bem, se não, aceitamos e tomamos um caminho alternativo.


O que por vezes acontece é que, quando nos desligamos do resultado, surge algo ainda melhor do que o que havíamos planeado, pois permitimos ao Universo fazer o seu "trabalho", e criar as condições para que o que melhor nos serve, aconteça. Além disso, quando planeamos algo, não temos conhecimento de todas as variáveis e o Universo tem, pois é a "consciência universal" que está a mexer as "peças" (pessoas e situações) para que tudo vá ao encontro do desejo da nossa alma.


Outro tipo de apego é a preocupação que a maioria das pessoas têm com a opinião alheia. O ego, que a grande maioria da raça humana ainda possui, é como uma falsa identidade que todos carregamos connosco e que se alimenta de uma determinada imagem que se quer fazer passar. Quanto mais forte for o ego numa pessoa, mais superior se vai sentir em relação aos que o rodeiam. Neste sentido, a opinião dos outros é muito importante, pois essa "entidade" para se manter forte, vai precisar da aprovação e admiração dos demais.


Assim, tudo o que uma pessoa fizer, vai estar sempre condicionado por aquilo que os outros irão pensar, o que, inevitavelmente, a vai afastar da alegria e felicidade que conseguiria, se se desligasse da opinião alheia e seguisse o seu coração que sabe sempre o que faz feliz a alma.


O medo de perder algo está na raiz de todo o apego, pois achamos que esse "algo" faz parte de nós e se o perdermos vamo-nos sentir "menos", “mais pequenos”. Isto só acontece porque não sabemos quem somos.


No entanto, quando despertamos para a nossa essência divina, ficamos conscientes de que nada nos pertence, TUDO nos é emprestado pela Vida e assim desenvolvemos um sentido de gratidão por tudo o que existe e vamos preenchendo o nosso vazio interior, não necessitando mais de algo que venha de fora e vamo-nos naturalmente desapegando de tudo o que não faz parte de nós: coisas/bens, crenças, hábitos, regras, medos que nos foram sendo impostos (ou como consequência de situações que vivenciámos).


Este é um processo que dura muitas vidas, mas uma vez concluído, vai-nos permitir sermos nós mesmos, com total liberdade para seguirmos o nosso caminho de forma leve e despreocupada, sabendo que cada um é responsável pelas suas escolhas e, em última instância, pela sua própria felicidade.



1Neale Donald Walsch a quem Deus ditou o conteúdo da trilogia “Conversas com Deus”. É um mensageiro espiritual da Nova Era. Cumpre esta missão através desses livros e de muitos outros que tem escrito e também das palestras que dá pelo mundo inteiro.



Adosinda Borges

Terapeuta Espiritual

sindaborges@yahoo.com

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