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DO AFASTAMENTO AO REGRESSO A QUEM SOMOS NA VIDA DIÁRIA

Por Ângela Antunes

Somos seres emocionais. Aprendemos com as experiências que nos marcaram emocionalmente de forma intensa. Em crianças, teremos sido seres espontâneos, a expressar emoções, talentos, qualidades, sem distinção de ''bom'' e ''mau'', sem nos censurarmos.


Num momento estaríamos zangados, aos gritos, noutro momento tristes, a chorar e no momento a seguir de novo entregues à exploração criativa do ser espontâneo. De início, não precisamos de aprovação de ninguém. Desfrutamos da nossa companhia.


Há um momento em que ralham connosco ou riem-se de nós por algo que fizemos e começamos a aprender que há coisas certas e erradas. Numas, somos apreciados e noutras somos censurados. E isso põe em causa a nossa sobrevivência, dirá o Instinto da criança.


Aprendemos que há uma maneira de ser errada e outra certa. Há emoções mal vistas e outras bem vistas. Não posso ser quem sou. Se me respeitar não gostam de mim. E começamos a desrespeitar-nos.


Um processo que acontece de forma inconsciente. Um processo humano coletivo.

Começámos a reprimir, esconder, a evitar mostrar emoções e aspetos da nossa forma de ser, mostrando o oposto. Começamos a comportar e a fazer as coisas ‘certas’ para termos o seu amor e o apoio dos adultos.


Assim, foi-se fechando à chave, no subconsciente, tudo o que era ‘proibido SER’. Esses aspetos são uma energia viva oculta que mora dentro de cada um de nós, AGORA. Uma energia que, acumulada, é como uma bomba-relógio que vai explodir a qualquer momento.


Os significados que atribuímos a todas as experiências que vivemos, que observamos, mesmo que não fosse diretamente connosco, hoje em adultos, influenciam a maneira como vivemos, como reagimos às situações.


Hoje, vivemos no Presente, com formas de pensamento (crenças) adquiridas no Passado. Se não mexermos nestas crenças do Inconsciente (e para isso há que as tornar conscientes), nos dias, semanas e anos seguintes, iremos viver relações e situações muito parecidas com as que tivemos antes.


As interpretações que nos causam mais danos são aquelas que dizem respeito a nós próprios: ‘’sou um produto danificado’’, ‘’não valho nada’’, ‘’o que faço nunca é suficiente’’, ‘’não sou merecedor’’, ‘’não sou importante’’ e muitas, muitas, outras.


Ao longo do tempo, a maioria de nós terá vindo a repetir estes mantras que afetam toda a nossa vida de adulto.


Ninguém poderia ter feito diferente. Ninguém sabia mais. Hoje, podemos tornar-nos conscientes do que vive aprisionado no nosso inconsciente, partes de nós que pedem atenção e carinho, como crianças à espera da atenção da mãe e do pai. Podemos investigar e libertar a carga emocional dolorosa que a maioria de nós carrega.


Sentimentos de abandono, sentimentos de não ser suficiente, sentimentos de impotência e frustração, que se revelam de várias maneiras – em relações disfuncionais, dificuldades financeiras, sentimento de estar sempre em dívida, na saúde.


Na medida em que nos vamos tornando conscientes, há mudanças que começam a acontecer dentro de nós, novas perspetivas pacíficas surgem.


Começamos a ver o mundo de uma forma mais expandida, ‘’fora da caixa’’. Serão as novas perspetivas que irão trazer paz interior. Uma mente mais clara e emoções equilibradas. Os acontecimentos, não podem ser alterados. Podemos encontrar novas maneiras de olhar para eles.


Que conclusões teremos tirado?

❏ ‘’Se não arrumares os brinquedos é feio. Não gosto de ti’’ / Talvez tenha concluído ‘’Tenho que fazer o que os outros querem ou, então, não sou amado’’. Talvez hoje faça muitas coisas que não correspondem ao que sinto para não aborrecer as pessoas.

❏ Se não deixo a brincadeira para acompanhar a avó à mercearia, ‘’significa que não me importo com ela’’. ‘’Não posso dedicar-me ao que gosto de fazer. Tenho de estar sempre disponível para os outros para não ser visto como insensível.’’ Hoje, talvez viva num mundo de obrigações e deveres onde não arranjo tempo para mim.

❏ Num momento de zanga, digo à frente de outras pessoas ‘’não gosto da tia’’ e a tia diz ‘’Eu trouxe-te um presente e agora tratas-me assim?’’. Posso ter concluído: ‘’Não posso ter opiniões próprias nem expressá-las. Se o fizer sou prejudicada(o)''. Hoje, em situações fico calado(a) e me deixo prejudicar, quando era altura de falar?

❏ Se as relações entre pai e mãe, avô e avó, entre tio e tia, ou outros, eram conflituosas, talvez tenhamos interpretado: ''O amor nas relações é doloroso’’ ou ‘’os homens/mulheres são todo(a)s iguais’’ ou que ‘’as mulheres têm de ser submissas aos homens'' ou ‘’tenho de abdicar de quem sou numa relação’’.



A maioria dos adultos vive de acordo com um ‘’Manual de regras’’ que se construiu dentro de si, segundo o qual tudo funciona de uma determinada maneira, o que limita as nossas perceções sobre nós, sobre os outros e não nos deixa ver a Realidade tal como ela É. Sem dramas.


Impomos limites e regras a nós próprios e achamos que é tudo quanto existe e que não há solução para nós. As interpretações que trazemos do Passado colam-se ao que acontece no Presente e depois reagimos, não ao que acontece em si, mas a essas interpretações.


Está connosco a capacidade de resgatar o nosso poder interior aprisionado por nós mesmos, dentro de cada um. Só poderemos reverter este fenómeno se nos dedicarmos durante um bom tempo a mexer no que se encontra, no que Carl Jung chamou de ‘’A Sombra Humana’’.


A capacidade de nos libertarmos dos fardos das crenças está connosco. E não há ninguém que possa fazer isto por nós.


Não há uma forma certa de ser, de viver, de fazer as coisas. Há a que cada um tem e, não significa que não se empenhe e dê o seu melhor e aprenda coisas novas. E o seu melhor irá variar conforme se sinta com energia e ânimo ou se sinta em baixo, triste, sem forças. Não deixa de ser o seu melhor, no momento.


Não temos de contrariar as opiniões dos outros, nem convencê-los das nossas. Vivemos todos experiências diferentes. Não podemos pensar e ter reações iguais às mesmas coisas.


É inútil discutir opiniões. Posso ouvir o que o outro diz e sigo o que for mais apropriado para mim. O outro está no seu processo de descoberta. Eu estou no meu. Isso é respeito por mim e pelo outro. Que, tal como eu, faz o melhor que consegue.


Ninguém tem de concordar connosco nem gostar daquilo que gostamos. Eu também não tenho de gostar do que outros gostam. É bom para mim, gostar das coisas que gosto, mesmo que outros não gostem. Basto eu, para me apreciar e desfrutar de mim. É amor por mim.


Respeitar o que sinto, é amor por mim. Emoções não se explicam. Sentem-se. Num momento vem a tristeza e eu recolho-me. A seguir, vem um momento de alegria. Sinto-a. Noutro momento vem a ansiedade. Sinto-a. Sem rótulos. São apenas energia, vive-se. Ficar à escuta, permite receber mensagens do universo, da Fonte, para nós. Informação útil. Se fugirmos delas, não vamos ter acesso de outra maneira. O universo/Fonte diz-nos sempre o que fazer a seguir.


Não temos de conviver com toda a gente e não temos de gostar de tudo e todos.

Não temos de estar sempre disponíveis. Por vezes, mostrar-me indisponível para outros é amor por mim. É estar disponível para mim!


O que deixamos de fazer por nós, para que outros gostem e aprovem quem somos e o que fazemos?


Que opiniões deixamos de dar, quando são diferentes do grupo onde estamos envolvidos? Seja no emprego, na família ou com amigos. O que poderia mudar sem este medo de expressar uma ideia diferente e que é honesta e revela integridade para connosco?


- Afastamo-nos de nós quando aceitamos convites e não temos vontade de ir.

- Quando comparamos a nossa maneira de ser ou o que fazemos com a de outros

- Quando nos ocupamos com a vida dos outros e deixamos a nossa sem soluções

- Quando somos inflexíveis e exigentes connosco e deitamos abaixo as nossas decisões

- Cada vez que nos esforçamos para manter uma imagem que queremos que outros tenham de nós.


A maioria de nós acredita que para ganhar dinheiro, a única fonte é um trabalho de que não gostamos ‘’mas tem que ser’’. E que para nos sentirmos merecedores do ordenado que ganhamos e termos um reconhecimento no emprego, temos de trabalhar horas extras diariamente. Talvez acreditemos que quem ganha dinheiro sem grande esforço é porque ‘’anda metido em negócios escuros’’ e é trafulha.


Por causa de crenças como estas, vivemos enterrados em vidas de esforço, de prisões financeiras, sem ver soluções ou alternativas. Falo por experiência própria, porque já vivi assim. Hoje, a minha vida é muito diferente, com a ajuda deste trabalho.


A minha experiência diz-me ‘’Trabalha sobre as tuas perceções e novas oportunidades virão ter contigo. É seguro e libertador descobrir coisas novas. Investiga o que se esconde atrás dos teus medos e as tuas decisões passarão a ser baseadas no Amor, por Ti. Quando decidimos pelo Amor por nós, o Amor passa a estar presente para todos à nossa volta. Não da maneira que se imagina, de uma forma que não se imagina. Só experimentando é que se poderá descobrir’’.


Neste trabalho de resgate da sombra e educação emocional, mergulhamos no sistema de crenças que se oculta nas entrelinhas das nossas ações, das afirmações que fazemos. Levar a Luz ao que temos na Sombra, cá dentro, é algo sagrado e, em vez de uma inimiga desconhecida, passamos a ter connosco uma companheira aliada que nos irá ajudar de forma saudável e construtiva. Permite-nos um salto de consciência.


As nossas relações tornam-se verdadeiras, maduras, íntegras, equilibradas.

As nossas escolhas, passam a ser conscientes e em sintonia com o nosso sentir.

Este trabalho não está relacionado com Psicologia, Psicoterapia, Filosofia ou Religião. Está assente na Espiritualidade. Viver o quotidiano respeitando quem sou, que ao mesmo tempo, respeita quem os outros são.




Ângela Antunes | Facilitadora do Processo d’A Sombra Humana

http://sombrahumanaangelaantunes.blogspot.com

Email: abracarasombra@gmail.com

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