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E DEPOIS DO DESPERTAR?

Por Adosinda Borges

Antes do despertar a vida é mais “fácil”. Não questionamos, continuamos a viver como robôs, com uma rotina que achamos perfeitamente normal...


Sentimo-nos "encaixados" neste mundo, todas as nossas escolhas estão de acordo com o que é aceite pela maioria. Crescemos, vamos à escola, tentamos tirar boas notas, vamos para a universidade, casamos, temos filhos e assim vamos vivendo, tudo normal... Até um dia... Até um dia em que algo nos "abana", em que algo abana essa estabilidade, esse caminho tão certinho que fizemos como pessoas "normais".


Por esse "algo" entende-se uma situação muito difícil, muito complicada, que nos "tira o chão" e nos atira para o "fundo de um poço". Aí, começamo-nos a questionar: "porquê eu?", "e agora, o que é que eu faço?", "não aguento mais isto...", "a vida não faz mais sentido...". Quando se passa um tempo considerável no "fundo do poço", a nossa consciência sobre a vida e sobre nós mesmos vai mudando, até que uma luz começa a entrar na nossa consciência e começa a iluminar o caminho para "sair do poço" e voltar à superfície.


Quando, finalmente, conseguimos sair e olhamos para trás, não só para a experiência que vivemos, como para a vida que levámos até ali, verificamos que não somos mais a mesma pessoa. Algo morreu em nós, deixámos para trás algo que já não reconhecemos como nosso. Sentimo-nos renascidos, despertos, a nossa visão sobre a vida e as pessoas mudou completamente e começamos a verificar que não nos identificamos com aquilo que antes achávamos "normal".


Sentimo-nos "diferentes", porque, realmente, agora somos diferentes, ou seja, somos nós mesmos, muito próximos da nossa essência, essência essa que nem sabíamos que tínhamos, pois identificávamo-nos completamente com o que era ser "normal", ou seja, igual aos outros, com os mesmos objetivos e aspirações. No entanto, agora que se deu esta transformação interior, sentimo-nos de tal forma diferentes, que não conseguimos mais levar uma vida "normal", já nada do que fazia sentido antes faz sentido agora: as rotinas, o trabalho, os passatempos, os bens materiais, o sucesso profissional, as opiniões dos outros, o ruído, as aparências... Tudo isto cai por terra.


Começamos a fazer um balanço do que foi a nossa vida até ali e as dificuldades começam a surgir: "e agora, o que é que eu faço? Não consigo continuar neste trabalho, não acrescenta nada à evolução da minha alma... E estes bens materiais são um peso que não preciso... E as rotinas? Estou cansada de viver o mesmo dia vezes sem conta... E o ruído? Preciso de paz, de silêncio para ouvir o meu coração, pois agora é ele que comanda a minha vida... E as aparências? Porque tenho de fingir algo que não sou? Agora que a minha alma se encontrou, ela só quer mostrar-se como ela é e lembrar aos outros quem eles são. Não quer usar mais máscaras, quer ser verdadeira, leve, simples... E determinadas amizades começam também a ficar para trás, pois não estão na nossa vibração, não nos acrescentam nada, pelo contrário, tiram a nossa energia."


Quando a alma se descobre desta forma, olha à sua volta e sente-se muito só, pois a maioria, continua na mesma, continuam nas suas rotinas "normais" e aí, quando se apercebem de alguém que saiu dessa rotina, não vão entender, vão criticar, julgar e condenar, pois as pessoas condenam sempre o que não entendem. E nós o que fazemos? Começamos por entender essa atitude, pois já fomos como essas pessoas, já pensámos e agimos assim... No entanto, agora não nos "encaixamos" neste mundo, pois temos valores, objetivos e formas de ver a vida completamente diferentes...


O que fazer?


Começamos conscientemente a procurar a nossa "tribo", a procurar outras pessoas que estão na mesma vibração, numa tentativa de partilhar experiências, pois estamos todos a descobrir um caminho novo e precisamos de toda a ajuda para nos encontrarmos a nós próprios e à nossa essência.


Esta busca leva-nos por caminhos alternativos. Na maior parte dos casos torna-se difícil mantermo-nos no mesmo trabalho, a não ser que a nossa alma sinta que está a evoluir através dele. De outra forma, não vamos conseguir continuar, pois o que fazíamos tornou-se completamente inútil e sem sentido para o propósito da alma, que é evoluir, ajudando não só outras almas a encontrarem o seu caminho e a serem mais felizes, como também dedicando-se à sua própria evolução, vivendo intensamente, dedicando-se às coisas simples da vida.


Neste sentido, muitas pessoas passam a dedicar-se a causas humanitárias, ao voluntariado, à formação em áreas holísticas, tornando-se terapeutas holísticos, transformam o que antes eram hobbies em atividades permanentes, pois o sucesso profissional adquiriu um novo significado: a felicidade no que se faz independentemente do retorno financeiro.


Paralelamente, vão ocorrendo outras mudanças, nomeadamente ao nível da alimentação, pois a transformação interior traz a consciência de que os animais também têm alma e, como tal, também sentem alegria e sofrimento. Assim, deixar de comer carne torna-se algo natural, que acontece gradualmente e sem esforço. Passamos a repudiar qualquer tipo de sofrimento ou exploração animal e muitos de nós tornam-se ativistas na defesa e proteção dos animais.


Estes valores estendem-se também à natureza, pois entendemos que todos fazemos parte dela e sem ela o ser humano não sobrevive. Então passamos a ter preocupações não só com a reciclagem, como com a poupança da água e na proteção do meio ambiente e dos recursos naturais.


Toda a consciência que adquirimos com a nossa transformação interior vai influenciar diretamente todas as áreas da nossa vida, contribuindo, assim, para um mundo mais harmonioso, onde os valores humanos de interajuda, de partilha de recursos, de proteção dos mais fracos e de entendimento entre todos, se tornam os pilares de uma sociedade global dita evoluída e "desperta".


Adosinda Borges

Terapeuta Espiritual

sindaborges@yahoo.com

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