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É SEMPRE PRIMAVERA EM ALGUM LUGAR

Por Patricia Tolezano

Ficamos maravilhados quando nos deparamos com aquela flor que nos diz que a primavera chegou. Do pequeno botão de flores à explosão de cores que se dá em cada jardim, tudo nos encanta nesta iluminada estação.


Aquele pequeno feixe de luz representa a esperança de momentos divinamente coloridos e remete-nos à nossa velha crença de que dias melhores virão. Imediatistas que somos, maravilhamo-nos com o momento sem nos darmos conta da importância de todos os processos que levaram este pequeno ser a vencer a superfície porosa e rebentar o solo, usando força sim, mas sem perder beleza e graciosidade.


Não é fácil chegar à superfície. Antes de se tornar luz na terra, as flores precisam conhecer e enfrentar as sombras, se unir a elas, buscando na escuridão húmida - por vezes, quente, fria ou lamacenta - a força necessária para crescer. É ainda em semente que recebem as primeiras lições da aceitação da sua pequeneza e força diante da difícil prova que é o tempo do recolhimento. São etapas muito distintas e naturais que forjam a forma e conteúdo de cada pétala.


O calor e a humidade a que estas minúsculas sementes são expostas, até vestígios de raízes brotarem, ajuda-as a ter força para crescer. Entretanto, podem sofrer alguma dor.


O mesmo solo que transforma e faz crescer, pode destruir se não houver a força de um guerreiro para, mesmo ferido, sugar da terra tudo que necessita neste primeiro momento, aprendendo a usar a chama intensa sem arder sob o calor de um verão abrasador.


Passada esta etapa de fogo, chega a hora das pequenas raízes ramificadas assistirem o descascar das parceiras mais vividas e desenvolvidas que elas. Silenciosamente, assistem às folhas de outros rebentarem e adubarem seu caminho. Algumas raízes ressentem-se do sofrimento alheio e deixam-se levar, perdendo-se em lamentos.


Mas há as que sobrevivem tirando lições de quem começou a vida bem antes delas, entendendo que cada galho seco envergado pelo vento, e cada folha varrida pela chuva, mostram a grandeza brutal da sutileza da vida. O outono que desnuda outras diante de si traz o autoconhecimento que a pequena raiz precisa para se unir às pequenas irmãs que estão, como ela, travando diminutas batalhas para permanecerem fortes sob o solo rijo.

A empatia trazida da fase de se ver no outro torna-se adubo para a união. Neste momento, o recolhimento e a introspeção é, ao mesmo tempo, despedida e despertar. É um fechar de olhos para se despedir do fogo abrasador que lhe feriu os primeiros dias de vida; é também um piscar de olhos para contemplar e apaziguar o guerreiro solitário forjado pela luta e um abrir de olhos para o acolhimento da força através da união, entendendo que cada cor, do mais pequeno ao imenso jardim, é um espelho de tudo e de todos.


As sementes que superam todas as fases compreendem que o processo que levou todos aqueles grãos a se transformarem em botão, flores e ramos é tão simplesmente único quanto especialmente comum.


Então, brindando quem cruzar o seu caminho com o entendimento que a diversidade de cores, tons, tamanho, brilhos, aromas são apenas diferenças de superfície e forma, e que o conteúdo extraído dos processos aproxima e une mais que separa, elas transformam força em beleza e tornam-se exatamente o que sempre foram na essência: luz no mundo.


Assim, nascem esplendorosas, diante dos nossos olhos de admiração, e juntas, tornam o jardim da vida radiantemente mais iluminado. Mas, ainda aqui, cada flor a seu tempo e do seu modo. Afinal, é sempre primavera em algum lugar ou em alguém.




Patricia Tolezano

Escritora, poeta, terapeuta de Reiki e leitora de aura

915 912 611

patriciatolezano@gmail.com

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