• Artigos

ESCRITA TERAPÊUTICA NA PRÁTICA

Por Ricardo Fonseca

O tema desta edição da revista Portugal Holístico baseia-se na frase de Buda “O que somos é consequência do que pensamos”, pelo que, neste artigo, irei abordar a escrita terapêutica como uma forma de transpor a ideia de que o que somos também pode ser consequência do que escrevemos.


Quando estamos a escrever sobre o que pensamos e sentimos estamos a atribuir uma forma, a dar vida aos nossos pensamentos e emoções, que fazem emergir a nossa personalidade, que se vai revelando e moldando consoante vamos lendo o que escrevemos, sabendo que após essa leitura algo mudará em nós, iremos querer moldar o nosso Ser.


É este processo em escrever o que pensamos e sentimos que se torna terapêutico para cada um de nós, possibilitando a integração das nossas verdades, muitas vezes escondidas porque não as queremos enfrentar, porque ainda não é tempo para as enfrentar e quando as enfrentamos, corajosamente, haverá, mesmo que inconscientemente, mudanças na nossa forma de ser, pensar, estar e sentir.

Um dos exercícios de escrita terapêutica que pode ser aplicado neste contexto é a Conversa comigo mesmo, sendo um exercício onde se vão criando diálogos entre o nosso interior e o nosso corpo, questionando o porquê de alguns pensamentos e ao que podem estar associados, dando voz ao que pensamos e, muitas vezes, temos medo de dizer, de admitir como nossas verdades, receando o seu efeito na vida do Outro com quem nos relacionamos.


Esse diálogo pode ir sendo construindo passo a passo, começando pelas questões mais simples como “O que estou a pensar neste momento?”, “Que efeitos tem esse pensamento na minha forma de estar, na minha Vida?”, “Porque não dou vida a esses pensamentos e os guardo apenas para mim?”.

Ao responder a estas questões começamos a compreender, em grande parte, o nosso processo de pensamento e os porquês de guardarmos tantas ideias e pensamentos em nós mesmos, recusando proferir os mesmos, não tanto apenas pelos efeitos no outro, mas sim pelos efeitos que poderá ter na nossa Vida e nas nossas emoções. É uma conversa, através da realização deste exercício, que nos vai despir, camada por camada, fazendo com que se perceba o porquê de tantas interrogações, de tantas dúvidas, receios e dilemas.


Ao desenvolver esse exercício que pode ser duplicado, por cada situação ou por cada pensamento, podemos ir descobrindo quem somos e como os nossos pensamentos têm moldado o nosso ser, a forma como vivemos, nos relacionamos, ajudando a perceber que realmente somos o que pensamos e somos tudo aquilo que escrevemos, porque nos permitimos ousar desvendar cada pensamento entrelaçado em tantos outros pensamentos e que clama por ser compreendido, por ser interpretado para aprimorar a nossa vida.

Não há respostas certas ou erradas nesta conversa, pois sejam quais forem as respostas, são parte de nós e são as nossas verdades e pedem um exercício de aceitação, sem juízos de valor, sem autocrítica, pois só assim podemos remover todos os grilhões que vamos colocando na nossa mente, tornando-a um epicentro dos nós emocionais da nossa Vida.


Esse processo de aceitação de que somos o que pensamos, sentimos e escrevemos, pode ser vivido através de um exercício de escrita denominado Compromisso de Aceitação, onde cada um de nós aceita o processo terapêutico que iniciou ao dar vida aos seus pensamentos e emoções e onde aceitamos quem somos, como somos, com as nossas verdades.

Neste exercício podemos começar o processo terapêutico de escrita com a seguinte afirmação: “Eu comprometo-me a aceitar os meus pensamentos como parte de quem sou, querendo conhecer cada um deles, para impedir que me dominem, que criem sobrecarga na minha Vida e para que me permitam compreender o que estou a viver (…)” e depois podemos continuar a aprofundar o nosso processo de aceitação, nomeando cada pensamento, dando-lhe a vida que ele merece.


Se somos o que pensamos, será que estamos felizes como somos? Será que gostamos e aceitamos os nossos pensamentos como parte de quem somos?


Talvez, em alguns momentos, a nossa resposta não seja afirmativa, pelo que cada um destes exercícios de escrita nos irá ajudar a compreender o porquê de não aceitarmos e gostarmos do que pensamos, estando, muitas vezes, relacionado com o medo de olhar diretamente para o nosso interior, que clama, por vezes, por um pouco de atenção, por algumas palavras que questionem, que ressoem na nossa alma e nos permitam evoluir e aperfeiçoar quem somos.



Ricardo Fonseca

facebook.com/ricardofonsecaescritor

  • YouTube