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ESCRITA TERAPÊUTICA NA PRÁTICA

Por Ricardo Fonseca

O tema desta edição da revista Portugal Holístico baseia-se na frase de Clarice Lispector “Sejamos como a primavera que renasce a cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores”, pelo que, neste artigo, irei abordar a escrita terapêutica do ponto de vista de como escrever sobre as emoções relacionadas com os processos de renascimento que vivemos ao longo da nossa vida.


Ao longo da nossa vida, vivenciamos diversos processos de renascimento, nos vários contextos do nosso viver, nas nossas relações pessoais, na relação connosco mesmos, sendo que, a cada renascimento, não somos mais iguais ao que éramos antes, pois mudaram as emoções, os sentimentos, os pensamentos e comportamentos, porém essa mudança e esse renascer só será vivido em plenitude, quando abraçarmos conscientemente essas mudanças.


A escrita poderá ajudar, em grande parte, para lidar com todas as emoções sentidas durante os processos de mudança da nossa vida, escrevendo sobre emoções positivas e emoções menos positivas, que carecem de uma reflexão pessoal, de uma conversa franca connosco mesmos, para que se possa reconhecer a mudança, integrar o processo de transformação e sentir o renascimento.


Um dos exercícios de escrita terapêutica que pode ser aplicado neste contexto é a Carta da Mudança, uma carta onde vamos expressar tudo o que sentimos em determinado processo de mudança, sem quaisquer juízos de valor, sem nos criticarmos por termos aceitado com mais ou menos facilidade o processo de mudança.


A Carta da Mudança pode ser iniciada escrevendo sobre a mudança em si, respondendo a algumas questões tais como “Porque mudei? Fui eu que quis a mudança? A mudança foi-me imposta por alguém? Mudei por mim mesmo ou pelo Outro?”, deixando fluir a nossa escrita, sendo sempre verdadeiros connosco próprios, removendo qualquer máscara que possamos utilizar, para encararmos o nosso mundo emocional tal como ele está e nos encararmos tal como estamos e somos.


Na mesma carta, continuamos a escrever, expressando as emoções que sentimos e vivenciamos seja qual tenha sido a causa da mudança, previamente identificada, respondendo às seguintes questões “Como me senti com a mudança? Como me sentia antes da mudança? Como me sinto após a mudança?”, expressando, em consciência, todas as emoções, sentimentos e pensamentos, seja qual for a sua carga emocional, evitando guardar em nós qualquer emoção que julguemos menos própria, por a considerarmos discordante com a nossa forma de ser e viver.


A carta vai sendo elaborada, ao seu ritmo, permitindo escrever sobre tudo o que está relacionado com o processo de mudança, permitindo vivenciar novamente as mesmas emoções e compreendo como as mesmas ressoam, neste momento, no seu ser.


Relacionado com os processos de renascimento da nossa vida há o conhecimento de que não ficamos iguais ao que éramos antes, como foi referido anteriormente e, nesse sentido, existe um outro exercício de escrita terapêutica que é a elaboração da Carta do Renascimento, ou seja, a carta onde expresso o meu novo eu, o efeito das mudanças em mim, como me sinto, o que penso, o que quero, o que mudei, o que deixei para trás, expressando sempre todas as emoções, independentemente da sua carga emocional, pois através desta Carta do Renascimento, vamos expressar a nossa forma de ser, estar, sentir e Viver.


Ao elaborar a Carta do Renascimento, iremos responder a algumas questões que servirão de fio condutor à elaboração da carta, questões essas como, por exemplo, “Como me contemplo neste momento? Para onde me guia este renascimento? Como este renascimento me afeta? Como vou salvaguardar e reforçar este processo?”, escrevendo de um modo fluído e permitindo-se sentir cada emoção que será transformada em palavra, para que possa ler e reler o seu processo de renascimento, para que possa contemplar o que mudou em si e possa criar o caminho que quer seguir.


Esta carta torna-se muito importante, para que cada um de nós se consciencialize que os nossos processos de renascimento são unicamente nossos, por mais que possam afetar quem nos rodeia e com quem nos relacionamos, porém, precisa ser vivenciado por nós mesmos, para que possamos renascer tal como queremos.


De facto, todas as palavras escritas nestes dois exercícios sugeridos serão a expressão do nosso ser renascido, porém, consciente que poderá viver novos processos de renascimento, havendo sempre motivos para escrever mais do que uma Carta de Mudança e uma Carta de Renascimento, pois iremos continuar a renascer e, cada vez mais, à medida do nosso querer e do nosso sentir!


Que as vossas cartas vos possam ajudar e apoiar em cada processo vivido, em consciência, aceitação e Verdade.




Ricardo Fonseca

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