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ESCRITA TERAPÊUTICA NA PRÁTICA

Por Ricardo Fonseca

O tema desta edição da revista Portugal Holístico baseia-se na frase Fernando Pessoa “Hoje tomei a decisão de ser eu”, pelo que neste artigo irei abordar a temática da aceitação do nosso Eu tal como ele é, sente, vive e se relaciona consigo mesmo e com o Outro.


Cada ser humano tem um conjunto de características que o define e o torna único apesar das suas similaridades com todos os outros seres humanos. Algumas dessas caraterísticas podem ser associadas ao que vulgarmente chamamos de qualidades e defeitos, mas que no meu entender, como terapeuta, se podem chamar qualidades positivas e menos positivas, pois defeitos é algo que deve ser associado a objetos e coisas e não a uma pessoa. Pensar em nós mesmos como portadores destas caraterísticas poderá permitir uma reflexão consciente sobre quem somos, valorizando a nossa aceitação pessoal.


No que diz respeito ao papel a Escrita Terapêutica no processo de aceitação plena de quem somos e como nos manifestamos, costumo aconselhar a elaboração da Lista de Qualidades onde se pode identificar as nossas caraterísticas positivas, que queremos manter e/ou aperfeiçoar e as nossas caraterísticas menos positivas, que precisamos acolher, aceitar, para as podermos transformar em positivas ou, mesmo que não consigamos transformar, para podermos viver com elas de um modo consciente e saudável.


Para a elaboração da Lista de Qualidades, temos que ser o mais sinceros possíveis connosco mesmos e não fazer qualquer juízo de valor que impeça a escrita dessas mesmas caraterísticas quer gostemos ou não delas. Após a elaboração dessa lista podemos iniciar o processo de reflexão sobre a forma como valorizamos ou desprezamos as nossas caraterísticas pessoais, pois mesmo identificando as que são positivas podemos estar a viver um processo de menosprezo por essas mesmas caraterísticas, por mais positivas que sejam, e podemos estar a enaltecer aquelas que não são positivas e das quais nem gostamos.


Agora que temos a nossa lista e começámos a viver o nosso processo reflexivo podemos dar continuidade ao nosso processo terapêutico, utilizando a escrita, elaborando a uma Carta da autoestima, uma carta onde vamos responder a estas questões “O que gosto verdadeiramente em mim? O que não gosto verdadeiramente em mim?”, escrevendo sem qualquer juízo de valor quais as experiências de vida que estão associadas às suas emoções e sentimentos que possam levar a que goste mais ou menos de si mesmo. Ao mesmo tempo, ao elaborar esta Carta da autoestima podemos começar a compreender que, muitas vezes, não aceitamos quem somos, não por nós mesmos, mas sim pelo que os outros pensam sobre nós e o poder que isso tem na nossa relação connosco mesmos.


A elaboração da carta supracitada vai permitir o florescimento de muitas emoções que poderão causar um turbilhão, ao recordar e escrever também sobre determinadas memórias e experiências de vida, o que pode levar a um outro desafio que é começar a escrever a Carta de Aceitação, onde vamos responder à seguinte questão “Porque não me aceito tal como sou?”, onde vamos responder com a maior sinceridade possível, escrevendo sobre todas as experiências e emoções que fazem com que não goste de mim, quer sejam causadas por mim mesmo, ou causadas pelo efeito que o Outro tem na nossa Vida e na visão que temos de nós mesmos.


A Carta de Aceitação não tem que ser escrita unicamente referindo aspetos menos positivos, pois podemos elaborar uma outra versão da mesma, respondendo à seguinte questão “Porque me aceito tal como sou?”, onde podemos escrever sobre tudo aquilo que sentimos positivamente sobre nós mesmos e quer faz com que aceitemos a totalidade do nosso ser, independentemente das vicissitudes da Vida e dos efeitos das nossas relações pessoais, incluindo a relação connosco mesmos.


A elaboração da Lista de Qualidades, da Carta da autoestima e das duas versões da Carta de Aceitação, vão conduzir a um grande processo reflexivo sobre a forma como vivemos, como nos sentimos connosco mesmos, identificando lacunas a colmatar, aprendizagens a integrar, emoções a acolher, e vão levar a um último exercício de Escrita Terapêutica que se chama Carta a Mim Mesmo, carta onde vamos responder a uma única e complexa questão “O que tenho a dizer a mim mesmo?”, onde vamos escrever sobre tudo aquilo que queremos conversar com o nosso ser, tendo como base as reflexões anteriormente realizadas com os outros exercícios.


Assim, estimado leitor, o que tem a dizer a si mesmo? Arrisca-se a ser você mesmo?

Ofereça a si mesmo, nesta época natalícia, estes exercícios e esta oportunidade de reflexão, crescimento e evolução, para que se possa sentir feliz tal como é, como sente, vive e se relaciona.


Bons exercícios de escrita e boas reflexões.



Ricardo Fonseca

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