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ESCRITA TERAPÊUTICA NA PRÁTICA - OUTUBRO

Por Ricardo Fonseca

O tema desta edição da revista Portugal Holístico baseia-se na frase de Charlie Chaplin “A vida é maravilhosa se não se tem medo dela”, pelo que, neste artigo, irei abordar a temática do medo relacionado com a sua influência nas nossas vivências, experiências, emoções, comportamentos e no nosso Viver.


Todos nós sabemos que o medo é um sinal que nos alerta para algo apelando à nossa atenção máxima para determinado assunto, situação, escolha, relação, sentimento entre tantas outras vivências, levando-nos, muitas vezes, a ter que parar quase que obrigatoriamente para refletir, em consciência, sobre os passos a seguir. Este é o lado positivo do medo quando é vivido em consciência e compreendido como um fator importante para os nossos processos reflexivos, de modo a vivermos da melhor forma possível.


No que diz respeito ao papel, a Escrita Terapêutica no desenvolvimento dos processos reflexivos sobre o medo, posso afirmar que se torna muito importante quando escrevemos sobre os nossos medos, quando os identificamos, quando lhes atribuímos um nome tornando-os reais, de modo a que possam ser acolhidos, aceites, compreendidos e claro está, ultrapassados. Ao escrever sobre os nossos medos estamos a reconhecer a sua existência e a tentar desenrolar o novelo que os mesmos criam nos nossos sentimentos e emoções, impedindo-nos de viver a vida, que é tão maravilhosa como dizia Charlie Chaplin.


Um dos primeiros exercícios de escrita que posso sugerir é a elaboração da Lista de Medos, onde se identifica cada um dos medos que assombra o nosso viver, seja qual for o seu contexto, o seu grau de importância e de repercussão na nossa Vida, escrevendo o seu nome sem identificar e sem escrever, de momento, sobre as situações em si. Alguns exemplos de situações que podem ser identificadas na Lista de Medos, podem ser: medo de voltar a se apaixonar; de expressar o que sente; de tomar decisões; de fazer escolhas; de terminar algo; de arriscar, entre tantas outras situações que podem ser enumeradas.


Com o preenchimento desta Lista de Medos vamos ter acesso a todos os medos que estão a interferir com a nossa Vida seja em menor ou maior escala, não querendo de todo expressar um processo de aceitação sem haver a necessária reflexão. Para aceitar os nossos medos temos que refletir sobre os mesmos e perceber como nos afetam e como podem ser ultrapassados, em vez de continuarmos a resistir e a lutar contra eles, pois quanto mais lutamos contra algo, maior é o poder que atribuímos a esse algo e maior o seu controlo na nossa Vida.


Agora que temos a nossa lista com alguns exemplos de medos podemos continuar a utilizar a Escrita Terapêutica para refletir sobre cada um deles, quer seja individualmente, quer seja de um modo coletivo, pois alguns dos nossos medos não se desassociam entre si e estão totalmente relacionados com as mesmas situações. Escolhendo um dos nossos medos, vamos começar por escrever um texto reflexivo respondendo a uma questão cujo enunciado contempla o próprio medo, como por exemplo “Porque sinto medo de me apaixonar novamente?”, “Porque sinto medo de expressar o que sinto?” e onde vamos escrever tudo o que nos faz sentido e está relacionado com esse medo, que, na maior parte das vezes, são situações do nosso passado que ainda se encontram por resolver e que limitam o nosso agora.


É um processo de escrita que vai implicar lidar com muitas emoções, sejam elas relacionadas com a situação atual ou com situações do nosso passado ainda por cicatrizar e por curar, pelo que aquando da construção do texto reflexivo sobre determinado medo, podemos ir anotando de lado todas as emoções que nos vão surgindo e sobre as quais iremos querer escrever posteriormente. Se durante um processo de escrita sobre determinado medo surgem outras emoções além das que estão a ser trabalhadas, implica que estão associadas a outras situações diferentes, mas que estão totalmente relacionadas com o medo atual e só voltando a escrever sobre essas situações mal resolvidas poderemos começar a aceitar, acolher e ultrapassar os nossos medos.


Tendo escrito sobre um determinado medo que assombra o nosso agora, podemos continuar a escrever sobre o mesmo, querendo encontrar soluções para ultrapassar esse medo e deixar de ser controlado pelo mesmo, pelo que um outro exercício de escrita será a resposta a questões como por exemplo “Como vou ultrapassar o medo de me apaixonar novamente?”, Como vou expressar o que sinto sem medo?”. As respostas a estas questões e todas as outras que serão desenvolvidas com ajuda da Escrita Terapêutica precisam de ser elaboradas em consciência com o que sentimos, onde a causa foi reconhecida e agora sabemos que temos que trabalhar essa mesma causa, podendo usar outros exercícios de escrita já explicados em outros artigos, como a Carta do Perdão, Carta da Gratidão, Carta ao meu Eu, entre outras.


Reconhecer que o medo é um sinal de alerta e não um sinal de controlo é um passo muito importante para vivermos da melhor forma possível, de bem connosco mesmos e com o Outro, conscientes que somos nós que controlamos a forma como queremos viver e “utilizando” o medo, quando necessário e em consciência, para nos proteger.



Ricardo Fonseca

Facebook: Ricardo Fonseca – Escritor

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