Faça as pazes com o passado: ancore-se no presente

O passado deve ser honrado e respeitado. Somos frutos das experiências,

situações e pessoas que passaram por nós. Cada um, a sua maneira, teve que lidar com

as frustrações, decepções, traições e violências que apareceram pelo caminho. Mas a

vida, além de espinhos, nos contempla com momentos de calmaria e amor. É a balança

da existência que, ao pesar os prós e os contras, nos fornece um período de descanso

para processarmos tudo que nos aconteceu.


A vida nos concede a chance de nos libertarmos de tudo que nos oprime e

sufoca. Contudo, a liberdade tem um preço alto e inegociável: exige de cada um a

capacidade de transmutação. Isto quer dizer que, depende exclusivamente de nós, a

escolha de transformarmos as experiências do passado em ferramentas que nos auxiliem a viver o presente com mais equilíbrio e inteireza.


A transmutação é a palavra chave para fazermos as pazes com o nosso passado e

ancorarmos no presente. O processo é lento, no qual a primeira fase pode ser chamada

de “síntese interna”. Somos convocados à realização de um exame de consciência. Não

é um passeio e tampouco um entretenimento. Olhar para dentro é assustador e, nas

primeiras vezes, parece que estamos entrando em um grande buraco, escuro e

aterrorizante. A vontade que temos é de fugir sem olhar para trás. Fingir que este lugar

não existe é tentador, quase irresistível. O vício de abraçar o conhecido (passado) nos

domina, mesmo que isso signifique não sair do lugar.


Estamos falando da nossa “suposta amiga” zona de conforto. Nela repetimos

padrões que nos levam ao sofrimento: sensação de incapacidade, impotência,

inadequação, ansiedade e angústia. A comodidade do que sempre foi (ontem) se

apresenta como sendo a escolha aparentemente mais fácil e prudente.

Ao contrário do que muitos pensam, ela deveria ser chamada de “zona de

desconforto”. É paralisante e impede que as pessoas tenham um relacionamento

saudável com o passado. À medida que vivemos, acumulamos malas e mais malas

cheias de emoções e sentimentos negativos. A zona de “desconforto” é representada

pelo peso que os nossos padrões assumem nas nossas vidas. São as bagagens

acumuladas ao longo dos anos. A maioria das pessoas prefere conviver com este

excesso de peso que só tende a aumentar.


O medo fala mais alto e, normalmente, está ligado à necessidade de agradar o

outro, não frustrá-lo. São pessoas que não sabem dizer não e tem pavor de rompimentos, separações e conflito. A energia que gastam ao tentarem ser o que não são drena qualquer possibilidade de renovação.


Os “acumuladores” de tranqueiras do passado estão aprisionados ao que passou.

Mesmo aqueles que têm consciência dos padrões negativos que repetem (síntese

interna), não conseguem passar para a fase seguinte da transmutação: materialização do

que foi aprendido por intermédio de novas atitudes com foco no presente. A âncora

deles está fincada no passado. Apesar de estarem acordados, é como se estivessem

tendo o mesmo pesadelo por anos e anos a fio. Têm a tendência de culparem os outros,

o destino, a economia do país, ou qualquer outra coisa que seja externa a eles. O ciclo se

repete indefinidamente e os deixa cada vez mais presos na estagnação.


Tem um grupo que conseguiu ir mais longe. São os “desapegados” que, com

muito esforço, transpiração e determinação, ultrapassaram a barreira da síntese interna.

O trajeto deles não foi nada fácil. Olharam o buraco, titubearam, mas insistiram em

enfrentá-lo. Aos poucos perceberam que não era tão fundo, escuro e terrível como

imaginaram. Com isso as visitas ficaram mais frequentes e, de certa forma, amistosas.

Quando chegam neste ponto, a transmutação começa a se operar: o reconhecimento do

passado, da sua importância e as pazes com ele são elementos essenciais para a abertura de novos caminhos.


O passado não pode ser apagado, é fato. Contudo, ficou para trás. Os que se

desapegaram concluem a etapa da transmutação jogando as malas no buraco e seguindo em frente. Estão abertos para o presente e todas as possibilidades que ele oferece. Os medos não sumiram muito pelo contrário. O que mudou foi a postura do viajante – de acumulador para desapegado – e a forma como encara a vida e o que acontece com ele.


O caminhante experiente tem a noção de que o trajeto deve ser feito com o

mínimo de peso possível. Sabe que tendo um comportamento “minimalista” irá mais

longe. Aproveitará o que a vida tem a lhe oferecer de forma mais íntegra. Constatou que

a vida é vivida no “aqui e agora”. Dar às costas para o passado, aproveitando os seus

ensinamentos, é essencial na busca por uma vida mais equilibrada e harmoniosa.

Viver no presente é sinônimo de uma vida com propósito. No entanto, exige que

tenhamos empenho e compromisso de rompermos com tudo que não serve mais. Como

estão as suas malas? Vazias ou abarrotadas de tranqueiras que devem ser eliminadas?

Mãos à obra e atenção: levamos uma vida inteira para esvaziarmos as malas! Por outro

lado, elas ficam cheias num piscar de olhos. O nosso desafio é estarmos constantemente

praticando a transmutação. Ela que nos permite sermos livres para caminharmos e

chegarmos ao nosso verdadeiro lugar.


Bibiana Danna

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