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O LUXO DE SER SIMPLES

Por Paula Delgado Salsinha

Enquanto crianças, vivemos a dualidade de querer tudo e ser feliz com quase nada. Querer aquele brinquedo, ver aquele desenho animado, fazer aquela atividade… querer o mundo! Mas também ser capazes, ao mesmo tempo, de estar horas imersos numa simples folha branca com uns lápis de cor.


Depois crescemos, e a vida organizada que inventamos como sociedade vem e diz-nos por onde deveria ser o caminho. Estuda, trabalha muito e lá no fim, poderás usufruir de tudo o que construíres. Ou não. Porque a vida sempre mostra que não chegamos bem a ter as rédeas.


Assistimos hoje a uma sociedade sempre online, high tech, que partilha tudo, onde o mais vale mais: mais amigos, mais posts, mais experiências vividas atrás de um ecrã.


Mas, curiosamente, é também agora que mais encontramos, em várias franjas etárias e sociais, uma busca por um regresso às origens. Um “stop”, um “tira o pé do acelerador”, um “vai mais devagar que a vida esvai-se-te por entre os dedos”.


O voltar a querer pão que é pão. A recordar sabores de ontem que pensávamos ter esquecido. A viver com menos roupa. A limpar com menos frascos. A viver com mais entrega.


Procuramos rotinas mais leves, menos carregadas de afazeres tantas vezes inúteis. Para que nos dediquemos ao que realmente preenche e põe tranquilidade no olhar e um sorriso na cara.


Este despertar coletivo que vamos vivendo tem muito a ver com esta era de Aquário que se aproxima lentamente, mais humanista, mais preocupada com o outro, com o dar sem esperar tanto receber.


Por isso, vemos um despertar alimentar e ambiental, que leva a procurar uma simplificação da vida. Porque se abriram olhos e se viu um consumo que chegou a extremos e nos deixou reféns de objetos e casas cheias de inutilidades.


Muitos confundem vida simples com vida demasiado frugal, sem mimos e toques de elegância. Mas um guarda-roupa simples, por exemplo, pode ser baseado em poucas cores/padrões e poucas peças, mas com qualidade, duradouras. Voltando ao tempo em que as coisas realmente duravam. Onde se cuidava delas para durar. E não esta visão do descartável, da tshirt da fast fashion que custa só 3 euros, e por isso se compra para juntar às 23 que já lá estão em casa…


Feiras de usados e 2ª mão, coisa impensável no Portugal de há uns anos, são hoje êxitos seguros. A crise do início da década trouxe também essa consciência: a de que há outras formas de vida e de ter o que é necessário sem ter de ser tudo novo a estrear. Consciência monetária que veio com o bónus da consciência ecológica.


Tal como há mais de 20 anos as marcas brancas e os supermercados discount foram olhados inicialmente de lado e com desdém, também estas novas tendências ainda não são aceites por todos os estratos, mas uma boa parte já se preocupa com o que compra, o que usa, o que deixa ficar e o que retira das suas vidas.


Esmagados por ritmos profissionais intensos, a maioria quer lidar com menos opções e menos “ruído”, para poder encontrar o tempo para as atividades que unem prazer e propósito, na busca da felicidade. Por isso, o minimalismo ganhou adeptos de forma exponencial, para retirar das nossas rotinas o que está a mais, seja roupa, livros, objetos, tarefas e sim, até pessoas.


Encontrar um modelo de vida simples, que nos preencha e deixe ficar o que tem valor e retire o que só enche a agenda dos dias, é um trabalho de descoberta e caminho pessoal muito valioso. Porque, afinal, fins de tarde soalheiros e abraços dos nossos são grátis e valem mais que ouro.




Paula Delgado Salsinha

Marketeer na área editorial e responsável pelo projecto Vida 1.0

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