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PARA SONHAR COM OS PÉS NO CHÃO!

Por Carmen Marangoni

Nestes dias, conversava com uma amiga sobre o quão triste é atravessar uma existência sem sonhar. E ela me dizia que é impossível. Então, começamos um dilema. Você sonha até mesmo quando quer trocar de carro. Ou esse tipo de sonho não conta? - ela me perguntava. Conta. Quem sou eu para dizer que não? Mas, confesso que acho que esse é um sonho pequeno, respondi, antes mesmo de voltar a beber mais um gole de café sem açúcar. Sim, eu estava a falar dos sonhos que não são materiais. Mesmo que tente compreender que eles não são menores do que os outros.


E quais seriam os outros tipos de sonhos, ela queria saber, agora muito concentrada também em dar uma mordida na torta de queijo. Sonhos abstratos. Foi o que me ocorreu dizer. Por exemplo, sonhar em ser uma pessoa melhor. Sonhar em encontrar uma vocação para dar um novo significado à vida. Então, é claro, ela já foi logo se atravessando na conversa para dizer que não há régua para medir o sonho. Há quem sonhe ser contabilista, ou contadora, como se fala no Brasil. Forma-se na Universidade e passa a vida a fazer cálculos, felizmente. Sim. Há um sonho para todos os gostos. Para todas as épocas da vida. Para todos os formatos. Concordávamos. Sempre sonhei em me tornar escritora. Porque desde criança sempre quis estender ao outro o entendimento de que a vida vale a pena.


Esse sonho sempre foi claro para mim. E, também, um pouco de motivo de revolta. Ela não conseguiu compreender como é que um sonho tão bonitinho poderia me causar um sentimento tão antagônico. Eu tinha a resposta na ponta da língua, porque estou sendo moldada nela. Não na língua, mas na resposta. Foi difícil explicar que para isso eu precisava me encaixar numa realidade crua, a do jornalismo factual, que transmite notícias fatais diariamente. E que essa rotina me fazia distanciar do motivo pelo qual queria me sentir viva. E que vivia às voltas por não conseguir conciliar uma coisa com a outra. E que já tinha passado, também, do momento de querer culpar tudo e todos por não dar conta de fazer com que o meu sonho se tornasse realidade.


Então ela puxou a palavra realidade para trazer à tona o gancho perfeito. O que Carl Jung, quis - e disse - muito bem: ‘Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.’ Embora o sonho, enquanto sonho, não é nada palpável, é preciso puxá-lo, arrancá-lo mesmo de alguma maneira para a vida real, essa do aqui e do agora. E, para isso, é claro, precisa-se vencer etapas bastante burocráticas e processos muito bem elaborados nesse mundo cheio de regras que os homens criaram para viver. Nós estávamos concordando, sabendo ainda, que não é fácil, mas que não é impossível, também. E chegamos juntas a uma conclusão que parece tão óbvia depois que se apresenta para a gente.


O equilíbrio necessário para fazer da vida uma passagem mais feliz é olhar para si. Para, de facto, saber o que é passa nessa nossa parte não visível e também pouco acessada de nós. Para que a gente faça contato com essa parcela absurdamente grande que nos conecta com o divino. É quando conseguimos fazer esse enfrentamento, esse trabalhinho que até pode parecer bonito, mas que é árduo, vamos encontrar o ponto do despertar. É por isso que não é fora que estão as respostas. Quando apenas olhamos para fora, ficamos nessa coisa que talvez seja o que Jung quis dizer, um mundo de sonho. De ilusão. Mas quando fincamos o pé naquilo que verdadeiramente somos, vamos encontrar o caminho para nos tornarmos quem de facto queremos e merecemos ser.


Estamos falando, naturalmente, de dois tipos de sonho. Aquele que sonhamos, e aquele que faz da vida uma coisa distante. Em outras palavras, acho mesmo que o mais importante nessa vida, que é tão curta, é saber viver um dia de cada vez. E com os pés fixos no chão, mas com olhar voltado para as inúmeras possibilidades de ser. Porque daí as respostas vêm. Caem como bons presságios. Não inibem a necessidade de materializar as coisas, mas já é de outro modo que isso acontece. Como é que se faz?

Ah, daí já é outra história. Cada um vai encontrar o seu momento. A sua forma. Assim como os sonhos, elas são muitas. E são capazes de fazer com que tudo, misteriosamente, faça sentido. Como uma espécie de sonho bom, a partir de dentro.




Carmen Marangoni Jornalista - MTB 13.086 55 (47) 988243756

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