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QUANDO SUBTRAIR SÓ TE ACRESCENTA

Por Diana Pereira

Começa agora a chegar a Primavera, a minha estação do ano favorita. Os dias começam a ficar maiores, a temperatura sobe, os animais começam a aparecer, a multiplicar-se e as flores começam a abrir. Por todo o lado surgem novas cores e novos aromas que não existiam no frio e escuro Inverno.


É na Primavera que, usualmente, fazemos as limpezas mais profundas às nossas casas. Limpamos o pó e a sujidade dos confins mais escuros das nossas casas, vasculhamos móveis e arrecadações para doar ou deitar fora o que já não utilizamos, ou não nos serve mais. Esta limpeza deve ser feita também nas nossas vidas.


Também nós devemos ir aos esconderijos mais profundos das nossas vidas e arrancar pela raiz o que apenas está a encher a nossa vida, a causar-nos preocupações desnecessárias, ou simplesmente a arrastar-se quando nada mais há a fazer. Há pesos que nos pesam mais do que apenas no corpo. Pesam nas nossas almas, estagnam as nossas vidas, deixam-nos sem energia.


Na vida, o excesso de bagagem também se paga, tal como nos aeroportos, embora o preço a pagar seja diferente. Um trabalho em que não estamos realizados e temos um mau ambiente entre colegas ou chefia; uma relação sem amor, sem respeito ou sem aceitação; excesso de responsabilidades para com a família, amigos, clientes, colegas, chefes; tudo o que não conseguimos atingir na vida e temos para nós como sendo um falhanço… Todos estes são pesos que carregamos às costas. Estes pesos devem ser libertados, pois em nada nos acrescentam. Eles estagnam-nos, deixam-nos suspensos em maus pensamentos, más emoções.


É importante iniciarmos este processo de desapego, preferivelmente ainda antes da Primavera, já que assim estaremos a libertar espaço para tudo o que pode crescer e florescer durante esta estação do ano. No entanto, este desapego não costuma ser visto com grande entusiasmo. O medo é algo que lhe está inerentemente associado. Dói-nos deixar para trás aquilo pelo qual lutámos, em que pusemos a nossa energia, o nosso tempo. Mas, por vezes, nada mais há a fazer por estas situações que passam apenas a ser grilhões, a sugar-nos energia, a prender-nos e a impedir que prossigamos livremente o nosso caminho, que evoluamos como a nossa alma precisa.


Cada ser humano é como uma árvore de fruto que precisa de ser podada. Embora seja um processo doloroso, em que a árvore é cortada e perde alguns dos seus membros, a árvore crescerá mais saudável, mais forte, com melhores frutos. Quando nos libertamos de situações que não nos acrescentam mais, passamos a ganhar mais tempo e foco, mais disponibilidade para nos dedicarmos ao que realmente queremos fazer crescer.


Os nossos sentimentos e emoções acerca de nós mesmos podem também ser um peso. Baixa auto-estima, culpabilização, vitimização, sentimento de fracasso, todos eles nos impedem de seguir o nosso caminho. Temos de cortar com todos estes pensamentos tóxicos que cultivamos em nós mesmos. Muitas vezes conseguimos ser o nosso pior inimigo. Retirando todos estes pesos, amarras, todas estas correntes, seremos capazes de continuar a nossa jornada sem medos, com coragem, motivação e com a capacidade de saborear a aventura do caminho, aproveitar a viagem, absorvendo os pormenores da paisagem.


O caminho não é, no entanto, um caminho apenas de rosas e arco-íris. Poderás ser visto como uma má pessoa por estares finalmente a arrancar o mal pela raiz e a libertar-te do que não te faz bem. A família e os supostos amigos poderão cobrar pelo teu afastamento, tentar fazer-te sentir mal com as tuas decisões, mas isso só deve servir de confirmação e de motivação para que sigas o teu caminho longe destas influências negativas. Muitas vezes acontece que as pessoas que te rodeiam não têm a tua coragem para crescer, evoluir, arriscar e, por esse motivo, tentam que também não o faças. Assim não se sentem tão incapazes, mal consigo mesmos e com a vida. Também eles precisam de se libertar de todos os pesos de que tenho falado ao longo destas linhas.


Que aproveitemos esta estação para subtrair das nossas vidas aquilo que não nos acrescenta nada.



Muito Amor,



Diana Pereira

*A autora não aderiu ao Novo Acordo Ortográfico

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