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QUEM SOU EU?

Por Adosinda Borges

Quando nascemos, é-nos dado um nome e, a partir desse momento, ganhamos uma identidade. Nascemos no seio de uma família (ou é-nos atribuída uma), que vive numa determinada zona do globo e aí começamos a dar os primeiros passos neste mundo.


Vamo-nos desenvolvendo num determinado meio (com determinado tipo de pessoas, cultura, religião, etc.) que, consciente ou inconscientemente, vai moldando a nossa personalidade. A acrescer a isto, há a sociedade em que estamos integrados e, numa escala mais alargada, o mundo como um todo.


As influências que sofremos são, portanto, muitas, ainda mais com o uso desenfreado das novas tecnologias que nos permitem o acesso a tudo o que está a acontecer no mundo em tempo real, assim como o contacto virtual com qualquer pessoa, em qualquer parte do globo, sendo assim possível contactar com pessoas de outras culturas e ampliarmos os nossos horizontes.


Deste modo, a informação chega-nos de todo o lado e invade-nos de forma, por vezes, asfixiante, não parecendo sobrar tempo para recuar um pouco e nos ligarmos às coisas mais básicas e simples da vida, como a natureza e o contacto próximo com as pessoas que amamos.


Paralelamente, o sistema de ensino tradicional também contribui para uma standardarização das pessoas, pois é igual para todos, baseando-se na transmissão de conhecimentos que devem ser assimilados pelos alunos, que depois são postos à prova através de testes. Estes conhecimentos são retidos na mente daqueles só até fazerem as provas, altura em que depois são esquecidos e dão lugar a outro tipo de informação, e assim sucessivamente.


As pessoas têm capacidades e talentos diferentes, mas estes são abafados por estes aspetos característicos das "sociedades evoluídas" de que fazem parte, e não lhes é dada a oportunidade de mostrarem e desenvolverem o que melhor sabem fazer, assim como a sua criatividade. Quando chegam à idade adulta, muitos não sabem o que gostariam de fazer profissionalmente, pois não conhecem as suas reais capacidades, uma vez que nunca lhes foi dada essa oportunidade. Muitos vão experimentando diversas áreas de trabalho, numa tentativa de perceberem onde se integram e se sentem realizados.


Aquela identidade que é criada a partir do momento em que nasce um novo ser e lhe é atribuído um nome, funciona, como diz Eckhart Tolle1, como um "cesto", onde se vai colocando tudo o que o caracteriza: o nome, a filiação, o estado civil, a idade, a profissão, as características físicas e de personalidade.


No entanto, o que qualquer um de nós É, vai muito para além destes conceitos "externos" da condição humana.


Quando se dá o despertar, entendemos, não intelectualmente, mas a um nível mais profundo (espiritual), que nós não somos um "corpo" que está neste mundo para desempenhar determinadas funções, mas que esse corpo é somente um veículo que a alma utiliza para experienciar situações que a vão fazer evoluir (ao longo de muitas vidas).


Portanto, cada um de nós é um ser eterno que, ao longo de cada uma das vidas, vai desempenhando determinados papéis, sempre de forma a experienciar-se a si mesmo em todas as situações (inversão de papéis), pois só assim se conhece, de todas as perspetivas.


Assim, a alma assume várias "vestes", a que chamamos de corpos, ao longo das várias encarnações e, quando cada uma destas termina, o corpo é deixado para trás, como uma “roupa velha”, que já não tem mais uso, pois já serviu o seu propósito. Com este entendimento, acaba-se o sofrimento quando se dá a morte de um ente querido (ou pelo menos é aliviado), pois entendemos que aquela alma cumpriu mais uma etapa do seu percurso evolutivo e vai regressar a "casa", onde é esperada pelos entes queridos, que partiram antes dela.


Da mesma forma que não somos um corpo, também não somos o que fazemos, pois como acontece nas sociedades ditas desenvolvidas, a partir do momento em que a pessoa, ou por falta de saúde, ou devido à idade avançada, deixa de poder desempenhar qualquer tipo de tarefa, torna-se inútil para a sociedade, pois o seu valor é medido pelo que faz e não pelo que ela É – o SER não tem qualquer importância.


O mesmo não se passa em algumas sociedades tribais e orientais (muitas vezes apelidadas de “atrasadas”), que olham para os seus anciãos como pessoas de muito valor e sabedoria a quem pedem ajuda e conselhos sobre a melhor forma de resolverem determinados problemas. Como diz Neale Donald Walsch2,“não importa o que fazes, o que importa é o que estás a SER enquanto fazes o que fazes”.


Assim como não somos o que fazemos, também não somos o que pensamos.


O que somos é a Consciência que observa os pensamentos. Mas até que se dê o despertar, identificamo-nos completamente com o que pensamos (Ego). O filósofo Descartes disse “Penso, logo existo”, como se pensar fosse condição para existir… Na verdade, quanto menos pensamos, e mais “espaço” criamos na nossa mente, mais o nosso EU se revela, a tal Consciência Universal que se manifesta em TUDO o que existe.


Desta forma, a resposta à pergunta: "Quem sou EU?" não é possível ser dada pela mente, pois esta é só um instrumento do Espírito (tal como o corpo). Além disso, o uso que fazemos dela é ínfimo quando comparado com as suas reais potencialidades (quando está ao serviço do Espírito e não do Ego).


Assim, a única forma de nos aproximarmos do entendimento de quem realmente somos é ficando no mais absoluto silêncio interior e aí "sentir" a sensação que nos é transmitida.


No entanto, dificilmente vamos conseguir transpô-la em palavras, pois como disse Deus, em "Conversas com Deus" (livro 1), de Neale Donald Walsch2, as palavras são o meio de comunicação menos eficaz, pois além de darem azo a más interpretações, são limitadas (em número e em sentido). Uma vez que a alma só se comunica pelo sentimento, este só pode ser entendido por quem se atreve a olhar "para dentro" e aí encontrar a resposta para a sua verdadeira essência.


Só sabendo o que NÃO somos, nos podemos conhecer a nós mesmos, pois só perante a escuridão reconhecemos a Luz. E nós somos Luz, mas para chegarmos a esta conclusão temos de nos “despir” de todas as ilusões, de tudo o que não faz parte de nós.


Tal como disse Miguel Ângelo, quando lhe perguntaram como fez a estátua de David: “David já lá estava dentro do bloco de pedra, eu só retirei o excesso”.




1Eckhart Tolle é um dos “mestres espirituais” mais influente dos nossos dias, que publicou livros de grande sucesso, como O Poder do Agora (título original “The Power of Now”) e O Despertar de uma Nova Consciência (título original “A New Earth”). Dá palestras pelo mundo inteiro e é convidado assíduo dos programas da Oprah Winfrey.


2Neale Donald Walsch a quem Deus “ditou” o conteúdo da trilogia “Conversas com Deus”. É um mensageiro espiritual da Nova Era. Cumpre esta missão através desses e de muitos outros livros que tem escrito e também das palestras e conferências que dá pelo mundo inteiro.



Adosinda Borges

Terapeuta Espiritual

sindaborges@yahoo.com

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