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SAMBA DA BÊNÇÃO

Por Carmen Marangoni

Um belo dia acenei para uma pessoa que parecia ser conhecida. Sim, era uma pessoa que me parecia muito familiar e que há muito não via. Quando ela retribuiu o aceno, levei um susto. Estava acenando para mim mesma. Mas como assim? Estava tão distante de mim que já me havia acostumado a encontrar-me fora. Eu explico. E não é difícil.


Encontrava-me na resposta que um amigo dava depois de eu perguntar o que fazer com determinada situação. Constantemente me via fora, reclamando da rotina que estava pesada. Estava na boca das pessoas. Em todas e todos que recorria para não me recorrer. Era como se eu fosse uma estranha para mim. E, então, com o tempo, naturalmente, comecei a distanciar-me até me tornar quase outra pessoa. Uma penumbra de mim mesma. Uma sombra que se preocupava em demasia com o que os outros iam achar. E cada vez que supervalorizava a expetativa dos outros em relação à minha própria vida, mais me afastava de mim.


Mas, no início, eu não percebia. Até levar este susto. Até ver que eu já estava assim, completamente longe de mim. Então decidi ir até lá. Não tinha mais como fingir que não sabia o que acontecia. Não tinha como me deixar assim, à deriva. Fui justamente para olhar para aquela sombra que via. Eu era aquela penumbra.


Cheguei de mansinho, como a gente naturalmente deve chegar, para não assustar. Encostei uma das mãos no ombro, para dar amparo. Me vi tão distante ainda assim. Tinha os olhos perdidos num outro lugar. Era como se estivesse vazia da minha própria alma. Era como se ela não tivesse conseguido suportar ser ignorada. Era como se meu corpo começasse a expulsá-la. Já nem sei se não era ela quem escapava por vontade.


Depois de um tempo a gente perde a até a própria intimidade. Olhava para mim agora do lado de fora e não sabia quem eu era. Apenas que estava assustada, porque quando me fui aproximando senti que estava muito carente de mim. Era uma reconciliação que levaria tempo. Mas quando decidi ser eu, entendi que teria que mergulhar fundo nesta proposta de reencontro. Que iria ter que ficar por um período na sombra da minha própria existência. Comigo. E com mais ninguém. E foi assim.


No início chorei muito. Ia dizer um pouco, mas foi bastante mesmo. No início parecia um choro de desespero. Depois começou a ser de alívio. Finalmente estava me encontrando. Depois comecei a limpar os olhos para ver. Logo começou a ventar. Já tinha espaço para um raio de sol. Fui me iluminando. Tomando coragem de olhar para mim. Entendendo que nem sempre somos só flores. Digo, assim, na prática mesmo. E na medida em que me fui tornando minha amiga, fui aprendendo a valorizar as qualidades. Percebendo que era possível me amar.


E quando comecei a sentir que podia me amar de verdade, deixando para trás as mazelas todas, fui ficando mais exigente. Já não me deixava abandonada por muitos períodos. Já não me importava mais tanto com o que os outros iriam pensar ou não. Essa parte foi mesmo redentora. Já comecei a querer fazer as minhas vontades.


No início foi difícil, confesso. Esquisito porque eu nem sabia bem o que é que poderia, de facto, me fazer bem, ressalto, assim, sem me preocupar tanto com os outros. Mas foi gostoso começar a me perceber. Acho que foi um pouco como um namoro. Fui-me conquistando aos poucos. Hoje, acho que estou a cada dia mais convencida de que sou a pessoa mais importante do mundo para mim. E isso, ao contrário do que pensava, não me torna egoísta. Me torna uma pessoa facilmente habitada. Tudo foi ficando mais leve. Mais sorridente. Mesmo nos dias de cansaço. Mesmo nos momentos de descrença.


Porque eles estão cada vez mais curtinhos. Logo, já quero ficar de boa comigo, sabe? Fui me apaixonando mesmo pela ideia de me fazer feliz. É que quando decidi ser eu, enxerguei lá no fundo de mim mesma esta potencialidade. E quando a gente molha os pés nesta iniciativa, é muito difícil voltar atrás.


Como já tão bem cantou Vinicius de Moraes, “é melhor ser alegre que triste”. Agora posso dizer que sou. E isso independentemente de como está o mundo à minha volta. Mas ele curiosamente está a cada dia melhor, também. É porque quando decidi ser eu, descobri o que, de facto, precisava para viver.



Carmen Marangoni Jornalista - MTB 13.086 55 (47) 988243756

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