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SIMPLES ASSIM...

Por Carmen Marangoni

No início da minha carreira como jornalista, gostava de procurar palavras difíceis no dicionário para usar nos meus textos. Sentia a necessidade de impressionar. Queria mesmo usar aquelas palavras pouco usadas.


Com o tempo, fui percebendo que quanto mais simples eu pudesse escrever, melhor ficava o texto. Era mais fácil de entender. Eu sentia-me melhor. Depois, percebi que ser simples na escrita exigia muito mais preparo do que o contrário. Passei a escrever como se estivesse a falar. Foi-se tornando uma espécie de estilo de linguagem.


Com os anos, fui adaptando esta vontade para a minha vida. Comecei a desapegar-me da necessidade de comprar coisas caras. O necessário tem qual preço? Fui adotando um estilo mais simples. E também compreendi que a simplicidade é uma riqueza.


Nas últimas semanas pedi licença do trabalho e fui à praia para dar fôlego ao meu último livro que ainda não está publicado. É sobre a minha última viagem a Lisboa. Passei horas a fio mergulhada naquela escrita, como é natural que aconteça. Numa madrugada, acho que era mais ou menos três horas da manhã, esfriou um pouco com a proximidade do inverno e senti fome. Na cozinha tinha apenas aveia. Fiz uma sopa com azeite de oliva e sal. Não tinha outros ingredientes. Mas de repente, aquela sopa quentinha antes do amanhecer pareceu a melhor refeição do mundo. Ela matou a minha fome. E também me livrou da necessidade de optar por muitas outras possibilidades de refeição.


Não é assim que acontece? A gente abre a geladeira, vê um monte de opções e não se contenta com nenhuma delas? Ainda resmunga que não tem o que comer em casa?

Justamente na volta desta minha última viagem a Portugal, senti algo semelhante no quarto de hotel. Eu tinha uma cama limpa e boa. Um chuveiro quente. Não precisava de mais. Diga-se que também foi a minha primeira experiência com pouca bagagem. Fiquei duas semanas e levei uma mala média. Tremia em pensar que não levava secador de cabelo. Quem dera mais de duas opções de sapatos.


Mas no decorrer dos dias, foi a melhor escolha. Sabe por quê? Não deixei de fazer nada por não ter roupa ou calçado adequados. Pelo contrário, não perdi tempo tentando montar o figurino perfeito. Tinha roupa para frio. Para tardes amenas e para se esquentasse. E era tudo o que precisava.


Então, todas as vezes que aparentemente tive menos, senti exatamente o contrário: não precisava de mais nada.


Assim, com esta, digamos, simplicidade, a vida também fica mais leve. Menos cheia de coisas que a gente pensa que não vive sem, mas que na verdade fazem pouca falta, para não dizer nenhuma.


Agora, depois de quase vinte anos, talvez esteja mais perto de entender a simplicidade de uma mulher que entrevistei uma vez no sul do Brasil, onde vivia quando era estudante. Era numa cidade próxima à região metropolitana de Porto Alegre. Ia por conta do aniversário do município. Ao chegar lá, disseram-me para entrevistar uma moradora antiga da cidade. Uma pessoa singular. No caminho tentava adivinhar o motivo da singularidade. A curiosidade sempre move um repórter.


Ao chegar, a moradia era extremamente simples para não dizer miserável. Era muito próximo ao rio. Não tinha cercado. Não tinha nada. Lá de dentro da casa de madeira sem pintura, saiu uma senhora muito franzina. Ela vinha contra o sol, não podia ver as suas feições. Ao aproximar-se, só conseguia enxergar o sorriso. Faltavam dentes. Mas depois que ela abriu a boca, nada mais disso importava. Ela me deu um abraço e disse que a gente ia conversar no jardim. Puxou duas cadeiras de palha e começamos a entrevista. No meio da conversa ela apontava para as flores e me contava que tinha muitas coisas plantadas, até mandioca, me falava. Ela tinha uma flor de crochê no cabelo e estava de batom. Ela sorria com tanta alegria. Era impossível não se deixar contagiar por aquela alegria.


Na casa dela não tinha luz nem água canalizada. Mas era o palácio dela. Tudo muito limpo e organizado. Mas isso eu soube de só espiar. Porque a conversa toda foi no jardim. Nós duas ali sentadas no meio das flores. Ela se sentia como se estivesse numa cidade florida da Europa. Aquela mulher era feliz. Uma felicidade que eu não conseguia alcançar na minha fragilidade. Mas aquelas cerca de duas horas de conversa foram suficientes para eu nunca mais esquecê-la.


Talvez o grande lance da vida seja ter menos para sentir mais. Não é uma ode à falta de prosperidade. Tem mais a ver com sabedoria. Então, para deixar mais claro, pode ser uma pergunta: o que você precisa mesmo para ser feliz? Isso está à venda?





Carmen Marangoni é jornalista e escritora. Autora de “Cartas para Frankenberger”, "Que História é Essa?" e coautora de “Olhares”. Esteve em Lisboa para realizar o Intercâmbio Rio do Sul & Lisboa, contemplado com o Prêmio Nodgi Pellizzetti de Incentivo à Cultura de Rio do Sul, Santa Catarina, Brasil, onde vive. Ministra Oficinas de Cartas. Tem crônicas e poesias publicadas em jornais e revistas. Coordena a equipe de Jornalismo e é apresentadora do Telejornal da Rba TV. Escreve para a coluna Conversa Escrita no Jornal Diário do Alto Vale.


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