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SOMOS TODOS PERFUMISTAS DA NOSSA PRÓPRIA ALMA

Por Patricia Tolezano

“Hoje tomei a decisão de ser eu”, já dizia Fernando Pessoa, meu poeta preferido.

Entretanto, ele não sentiu necessidade de explicar que deveríamos ser versões cada vez mais aprimoradas de nós mesmos. E que deveríamos encher o mundo com um perfume leve e indelével, extraído da fonte pura que é a nossa alma.


Se eu fosse uma fragrância adoraria ser um cheiro de bolo de avó, numa tarde chuvosa ou uma bela e ensolarada manhã que se avizinha, ou a casa da mãe pronta para receber o filho querido em visita ou mesmo o cheiro do parceiro após o amor. Eu preferiria ser uma lembrança aconchegante, docemente envolvente e sutilmente inigualável.


Minha embalagem seria um vidro curvilíneo. Sua caixa de aspeto alegre e levemente colorido seria um convite à alegria e ao prazer. Ao olharmos a penteadeira, veríamos uma espécie de arco-íris envolto pelo orvalho da manhã.


E a tampa simples para abrirmos e usarmos o perfume sem moderação, pois o vidro seria recarregável e jamais se esvaziaria. Num dia de cansaço, banharíamos como se estivéssemos num pequeno riacho, ora morno, ora frio, pronto para o uso como melhor apetecesse.


Meu marketing seria simples e deixaria claro que a química seria perfeita com qualquer pele e em qualquer tempo e circunstância. Ao borrifar-me, diária ou raramente, os óleos essenciais penetrariam e a pessoa magicamente seria preenchida de tudo que é bom e belo.


A nota de entrada seria um bouquet de paz, que prepararia os narizes mais ou menos apurados para receber a nota do coração, extraída do amor que nada quer em troca além de amar. Assim, a nota final sentida seria a felicidade plena.


Mas há quem prefira ser exótico, pitoresco, quente, refrescante, forte, inebriante, com embalagens viris, exageradamente escuras, pequenas, raras, caras, opacas. Cada fragrância é única e cada uma marca como gosta.


Somos todos perfumistas da nossa própria alma. E nossos cheiros, assim como nossos gostos, são um reflexo do que somos. Portanto, não adianta um frasco vistoso se a fragrância guardada nele se estragou por falta de uso ou pela nota exagerada de algum ingrediente menos feliz.


Não importa as intempéries que a embalagem tenha enfrentado, se resolvemos ser perfumes, seremos as melhores fragrâncias do mundo. E mesmo que os processos de preparação e filtragem não tenham sido perfeitos, se decidirmos borrifar paz, luz e amor, finalmente teremos tomado a decisão de sermos versões melhores de nós mesmos.

Eu quero ser perfume de amor. E você: qual cheiro quer exalar e reconhecer?



Patricia Tolezano

Jornalista, escritora, poeta, terapeuta de Reiki e leitora de aura

patriciatolezano@gmail.com

https://www.facebook.com/patriciatolezano.com.br/

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